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quarta-feira, 18 de abril de 2012

TomZé

terça-feira, 10 de abril de 2012

Dum velho calhamaço

POESIA—É como cada um a sente e entende. Para uns resume-se n'um bom pichel de vinho novo, diante de um lombo assado; para outros é a lua reflectindo-se nas aguas serenas dos lagos; para a mãe, o riso do filhinho no berço; para o pae, o não ouvir chorar a creança quando quer trabalhar; para o soldado, não ter de ir á guerra; para o empregado, um feriado; para a donzella, um noivo; para o agiota, noventa e nove por cento; para o ministro, a pasta indisputada e os applausos da maioria; para o marinheiro, o bom vento; para o medico, um caso de doença bem horrivel e bem desconhecida; para o fumador, optimos charutos; para o viajante, mundos desconhecidos; para a mulher, um vestido como não tenha nenhuma das suas amigas; para o marido, uma familia que não lhe peça dinheiro; para o janota, objectos que pôr no prego e botequim que fie cognac; para as actrizes, palmas e admiradores ricos; para os escrevinhadores, quem lisonjeie as suas inepcias e semsaborias; para os maus auctores, quem lhes louve a estupidez e a ignorancia; para os emprezarios, auctores famintos; para os inuteis, um fato bem feito... para mim a poesia é o silencio, a solidão e o somno.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Embebedem-se



Enivrez-vous
Il faut être toujours ivre, tout est là ; c'est l'unique question. Pour ne pas sentir l'horrible fardeau du temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer sans trêve. Mais de quoi? De vin, de poésie, ou de vertu à votre guise, mais enivrez-vous! Et si quelquefois, sur les marches d'un palais, sur l'herbe verte d'un fossé, vous vous réveillez, l'ivresse déjà diminuée ou disparue, demandez au vent, à la vague, à l'étoile, à l'oiseau, à l'horloge; à tout ce qui fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, demandez quelle heure il est. Et le vent, la vague, l'étoile, l'oiseau, l'horloge, vous répondront, il est l'heure de s'enivrer ; pour ne pas être les esclaves martyrisés du temps, enivrez-vous, enivrez-vous sans cesse de vin, de poésie, de vertu, à votre guise.
Charles Baudelaire, Les petits poèmes en prose

Embebedem-se
A verdade é que se deve estar sempre bêbado: é essa a única questão. Para não se sentir o terrível peso do tempo a vergar-nos as costas e a deitar-nos ao chão, precisamos de nos embebedar sem descanso. Com quê? Com vinho, com poesia, ou com uma virtude à vossa escolha... mas embebedem-se! E se por vezes, seja nos degraus de um palácio, ou nas ervas duma fossa, acordarem com a bebedeira esvaída ou desaparecida, peçam ao vento, a uma onda, a uma estrela, a um pássaro, a um relógio; a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rebola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntem-lhes que horas são. E o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio, hão-de responder-vos que são horas de se embebedarem; para não serem os martirizados escravos do tempo, embebedem-se, embebedem-se incansavelmente  com vinho, com poesia, com virtude, à vossa escolha
Charles Baudelaire, "Pequenos poemas em prosa"

(trad. JM)