sábado, 1 de dezembro de 2012

Liberdade (nem do milhão nem do tostão)

 
   Despedidas são o caralho. Como qualquer pequena morte, vestem-se de folclores, levam-se a sério, escorridas de lágrimas e de lírica extremada, agigantam-se e esquecem-se do morto. Cais ou gares, de lenços brancos ou acenos gritados, inaudíveis num coro de placentas e de afectos tão inventados que, honestamente, poderiam ser jurados, a despedida junta-se em vida à terra árida do cemitério, ao cálculo da lápide e à promessa de cuidados muitos. O despedido, esse, veste a fatiota do pateta julgando ser  personagem, inconsciente de que o espectáculo o devorou e de si fez, afinal e apenas, figurante.
   Encenada, a despedida subverte a sua real natureza, inverte papéis, baralha enredos, ficciona e justifica-se. As mágoas tornam-se argumentos, o vazio preenche-se de razões (e o falecido Espinosa já nos tinha alertado para o horror que a Natureza tem do vazio...), numa pressa que só pode esconder medo ou má-consciência.
   A despedida é líquida e fugaz como um orgasmo. É momento isento de memória ou escadaria duma memória futura. Não devia haver palavra "despedida", nem "justiça" nem, tão pouco, "amizade", porque se as palavras tivessem o peso e a verdade das pedras roladas que o mar devolve à terra, honestamente,  entenderíamos que no cais ficamos não a ver partir nave ou afecto, mas a cumprir o nosso destino de morrer.
   Perdoe-se-me a presunção mas quem cuida de si como bem raro, quem se esforça por recordar um princípio e se condena a um fim está irremediavelmente fodido. No meu dicionário pobreza não sinonimiza com miséria, caminhos muitos e a força (diria viril, não fosse a conotação) é militância e nunca funcionalismo.
   Evoco Neruda (não o livro, mas o fabuloso título "Confesso que Vivi")... assim, no final, o possamos sentidamente dizer todos.