sábado, 15 de março de 2014

o Primeiro Beijo (Beijo)




    Hoje sonhei com a primeira vez que dei um beijo-beijo. A lembrança do sonho, que me apanhou desprevenido no meio da cidade, obrigou-me a parar e esconder uma emoção de quem visita muito poucas vezes o passado leve e limpo, porque sente o desconforto de estar a invadir propriedade alheia.
   Lamechas ? E... ?
   Pensava que os mortos só tinham futuro para recordar. Pensava que pensava uma série de coisas e (já) não pensava em tantas outras: Afinal penso... Se calhar é por isso que posso sentir

   P.S. - Vai o Donovan porque foi a banda sonora do meu primeiro beijo. E revejo os longos cabelos                   de uma Madalena a quem mando um último beijo



Afinal sábado, afinal Terra, afinal eu





   Depois de sonhos assim, abre-se, a janela com cuidado e, com alívio descuidado, constata-se que está tudo igual, na lenta agonia que, apesar de tudo, não nos inquieta. Até na japoneira (como aqui chamam à cameleira) não noto sobressaltos, e esta é a altura do ano em que sucedem. Um conto de fadas a vida vista assim. A ironia disto tudo lateja como uma doméstica dor. Estas irritações persistentes ajudam-me a aguardar com mais paciência o som ejaculatório da cafeteira. Mas essa já é a crónica da paz dos distraídos...

   Este jogo de espelhos a que chamamos mundo por vezes embacia, é só isso.


Leon Redbone (para aligeirar)







I can't sleep at night, I can't eat a bite,
'Cause the gal I love, she don't treat me right.
Oh, baby, you make me feel so blue,
I don't know what to do.
Sometimes I sit and sigh and then begin to cry,
'Cause the gal that I love has said her last good-bye.

There's a change in the ocean, change in the deep blue sea.
I'll tell you now, there ain't no change in me,
'Cause I'm in love with that gal -- will always be.

I can read her letters, but I sure can't read her mind.
Yes, she said she was in love with me, but she was lyin' all the time
Well, now I know my poor love was blind.

[Chorus]
Now I got the crazy blues,
Since my baby went away.
I ain't got time to lose,
I must find her today.
I'm gonna do like a madman, get some horse,
Get myself a gun and shoot myself a couple.
My love has been refused,
Now I got the crazy blues. 

Went down to the railroad, put my head on the track.
Yeah, I thought about my gal, and I snatched it quickly back.
Well, she's gone, she's gone, she give me the sack.

[Chorus]

Well, the doctor's gonna do all he can,
That's what he's gonna need for the undertaker man,
'Cause my love has been refused,
Now I got the crazy blues.




Fernando Pessoa (ele)




Há entre mim e o mundo uma névoa que impede que eu veja as coisas como verdadeiramente são — como são para os outros.
Sinto isto.

Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966

Penso em ti no silêncio da noite (Álvaro de Campos)



Penso em ti no silêncio da noite, quando tudo é nada,
E os ruídos que há no silêncio são o próprio silêncio,
Então, sozinho de mim, passageiro parado
De uma viagem em Deus, inutilmente penso em ti.
Todo o passado, em que foste um momento eterno
E como este silêncio de tudo.
Todo o perdido, em que foste o que mais perdi,
É como estes ruídos,
Todo o inútil, em que foste o que não houvera de ser
É como o nada por ser neste silêncio nocturno.
Tenho visto morrer, ou ouvido que morrem,
Quantos amei ou conheci,
Tenho visto não saber mais nada deles de tantos que foram
Comigo, e pouco importa se foi um homem ou uma conversa;
Ou um [...] assustado e mudo,
E o mundo hoje para mim é um cemitério de noite
Branco e negro de campas e [...] e de luar alheio
E é neste sossego absurdo de mim e de tudo que penso em ti.
F. Pessoa - Álvaro de Campos